segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Silvana

Silvana desacreditou quando desembarcou em Paris.
Economia de dois anos pra conhecer a cidade tão bem cantada por Edith Piaf,Cidade Luz.
Foi sem um amor na bagagem.Na cidade mais romântica do mundo.Silvana tomou vinho sozinha,degustou azeites carissimos e tomou cuidado com crossaint's engordativos e deliciosos.
Não houve lágrima ou desespero.Soube ser companhia pra si.
Brasileira,amazonense,flamenguista e corretora de imóveis,alegrou-se ao tirar fotos de cada canto da cidade e postar em seu blog pessoal.
Comprou alguns "souvenier's" para seus 7 sobrinhos,2 amigas e para o ex namorado hoje casado com sua cabeleireira.
Silvana tinha marcas no coração que o tempo podia até fazer questão de não apagar,mas na lembrança guardava apenas o fogo ardente de ser feliz independente da variedade de atuações de vários amores deixados a beira da estrada.
Uma semana restava para voltar ao Brasil,foi em um antiquário na tarde bela e fria de uma Paris atual observando os quadros abstratos a frente reconheceu os fios longos e loiros de uma antiga amiga.
Denise.
Haviam estudado o colegial juntas e nunca mais se viram;Denise apresentou o marido e logo foram jantar a três em um pequeno restaurante calmo,regado a vinho e boa conversa.
Relembraram.
Antoine um típico francês alto e magro ouvia a conversa calado e atento ao português que vinha aprendendo desde que conheceu Denise na Embaixada Brasileira onde ela trabalhava como secretária a exatamente 3 anos naquela noite.Tímido propôs que a brasileira fosse a casa deles no dia seguinte marcaram o horário e antes mesmo que Silvana pudesse se dar conta um táxi a esperava na porta do hotel para levá-la a casa dos amigos.
Ao chegar,Denise esperava sorridente na porta cheia de flores em um belo endereço da cidade,no olhar de ambos algo diferente,certa sensualidade pairava no ar.Frisson.
Conversaram amenidades.
Entre um copo de vinho e outro,Denise a beijou.
Elas se beijaram.
Antoine olhou tímido.Tirou a roupa,tímido.
E na bela cidade levemente fria um casal mostrou a beleza da cidade.
A beleza dos corpos entrelaçados.
Silvana esqueceu de postar por um dia algumas fotos.

Fernando

Ardendo em febre Fernando foi a farmácia munido com sua receita médica.
Mau saudou o balconista e logo apresentou seu passaporte pra felicidade seja lá o que iria tomar pois não decora nada muito menos nomes de remédio desejava o retorno do paraíso que nada mais é aquele desejo sóbrio de não sentir dor.
Saído de lá com vários comprimidos coloridos tropeçou na calçada vazia talvez houvesse chutado os próprios pés na pressa de retornar a casa,apenas sua casa;noite chuvosa em São Paulo,um resfriado por presente do tempo,uma farmácia à três esquinas de casa,maus motoristas,cliclistas,motoqueiros e transeuntes dentre todos,ele.
Não sabia se o seu mau humor teria nascido do resfriado-gripe ou do abandono que sentia toda vez que chovia principalmente a noite.
Era feliz ao seu modo.
Felicidade grifada ou pontuada poderia ser infelicidade explicada.
Deixou analista,igreja ou crença que fosse.Conversava com o D'us.Deus que ele passou a crer de forma como os hebreus.Talvez a solidão reinante em cada judeu espahado pelo mundo por não terem um lugar seu e o pseudo lugar nunca ter paz foi o que o fez identificar com essa fé.
Todo judeu é sozinho.
Todo judeu sofre calado.
Tudo sou eu no silêncio da noite.
As vezes,talvez,quase sempre...palavras de seu vocabulário constantemente revisitadas;certeza lhe faltava a dúvida permanente batia em sua porta todas as manhãs.E se não fosse a música...
Ah se não fosse a Arte!
Apenas com ela ele podia ficar mais próximo do Eterno.
Valia a pena continuar em dúvidas diárias?
A consciência o questionava enquanto preparava Leite com aveia e mel.
Confusão seria resposta para os que procuram o caminho alternativo?
Engoliu a castanha olhando pro quadro de Nina Ali Faour;um homem diante de uma cruz cravejada de diamante e sangue, no chão pétalas brancas e romãs.
Pensou em não pensar.
Era sábado,deitou-se.
Ateou fogo no corpo,chorou baixo para não incomodar os vizinhos.

sábado, 8 de agosto de 2009

Juan

"Considerando a pouca idade diverte-me teu sexo"
Eliana saiu de cima do ex aluno de 18 anos com quem havia feito sexo durante a tarde toda na casa dela enquanto o marido viajava pela Europa com a secretária bílingue 13 anos mais nova que ela.
Os corredores escuros da Escola Estadual Felipe Hofenstiedl na comunidade carente de Peruíbe causou fetiche em Eliana desde o primeiro dia em que ela entrou para ser voluntária e acabou lecionando português em aulas de reforço.
Num dos muitos dias nublados de São Paulo conheceu Juan,jovem moreno de cabelos pretos lisos,olhos grandes escuros,boca carnuda e dentes branquissimos,1,73,fala firme de quem sabe soletrar Liechtenstein.
Juan tinha interesse nas palestras sobre autors nacionais,gostava muito de Guimarães Rosa e aprendeu com a bela professora que até então não tinha notado a apreciar poesias tornando-se em pouco tempo fã confesso de Wally Salomão.
Não conversavam.
Apenas as palestras lhe interessavam.
Quando completou três meses de aulas ininterruptas houve uma pequena festa e Juan surpreendeu a todos tocando uma bela canção de Adriana Calcanhoto e Wally Salomão,foi a primeira vez que Eliana gozou sem ter sido tocada por ela mesma ou por outro.
Ao chegar em casa transou com o marido como se estivessem voltado aos 18 anos e em sua cabeça estavam num banco de um carro qualquer,sujeitos a serem multados,vistos,abordados enfim...O frisson do novo,do poético com o real a distanciavam daquele grande apartamento do Morumbi outrora habitado por duas pessoas de meia idade que comem comida sem sal e preferem piscina à praia.
Pela manhã um beijo rápido no marido e escola.
Espera por Juan.
Ao chegar Juan percebeu os olhos desejosos da professora e na saída convidou-a pra ir em sua casa;um quarto-sala pequeno onde mal cabiam cama e geladeira,mas eles utilizaram tão somente a pequena mesa redonda.
Gozaram juntos.Suaram juntos.
Levantaram-se juntos.
As aulas acabaram.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Edu Mackenzie

Se ele soubesse o que fazer não estaria ali parado de frente pra geladeira de porta fechada.
Não havia tostão algum em seus bolsos a não ser as moedas dos três ônibus que tinha que pegar pra ir ao teatro,ator iniciante carreira/perigo disse sua mãe,até aquele momento ele pode respirar nem sempre sossegado mas com nariz em pé.
Caipira em cidade grande Eduardo Souza Pires nome de batismo de Edu Mackenzie o ator de teatro homem negro da pequena cidade de Piquete,sempre sonhou em frequentar a Faculdade Presbiteriana Mackenzie que ouvira falar bem através de jornais e dos membros da igreja que sua mãe frequentava,ela mulher pobre empregada doméstica que criou o rapaz com pouco arroz e feijão e muita severidade advinda do amor incondicional a este.
Edu conheceu o teatro na escola quando lia os jornais levado pela professora para sala de aula e ali no caderno jornalístico destinado a artes ele viu algo intrigante uma ator de televisão longe daquela luz da tv,aquela maquiagem rica,aquele jeito de que "tudo sabe" que só a tv proporciona,viu um ator de tv totalmente modificado.
Não sabia identificar o que.
E foi a primeira impressão que teve depois confirmada por outras vezes e chegou a um determinado pensamento:"Atores mudam no teatro,recebem vida ali"
Passou a sonhar com teatro e um dia sonhou estar em cima do palco,sim,ele como ator;sua mãe na primeira fileira também recebia aquela luz que só o teatro proporciona,acordou sorrindo.
Aos 15 anos saiu de Piquete e foi morar com um casal de tios em São Paulo viveu com eles durante três anos e quando pegou certa confiança na cidade se achou pronto a ir morar sozinho num pequeno quarto/sala pra moços solteiros.Trabalhava como entregador de gás de cozinha durante o dia e fazia teatro a noite começou fazendo curso numa pequena sala disposta pra oficinas pela secretaria de cultura da cidade.Dali foi convidado a participar de um grupo de teatro e começou seu trajeto artístico.
Sua mãe não o vira no teatro após 2 anos de já ter iniciado,ela cria no talento do filho mas tinha medo da falta de sucesso que este meio de trabalho premia seus ardorosos valentes..
Em um mês de Abril Dalva Souza Pires fechou os olhos e dormiu.
Edu Mackenzie voltou a Piquete pra enterrar a mãe.
Pegou os pequenos pertences,alguma economia e voltou a São Paulo.
Não chorou.
Três dias passados Edu Mackenzie estreou como ator protagonista de um musical europeu que seria montado no Brasil por uma temporada de três anos,após um ensaio cansativo de danças e canto voltou pra sua kitnet tomou um banho rápido e pensou em fazer chá.
Ao caminhar em direção a geladeira,chorou.Olhando a geladeira de porta fechada reavaliou a vida que se fechará num fim.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

BenCastle

Estava sozinha até aquele momento,quando ouviu o carro do vizinho chegar na casa ao lado.Foi até ele e não se ateve simplesmente em olha-lo:tenho sentido algo aqui dentro de mim que pode ser chamado de amor.
O rapaz com seu sorriso sempre belo disse:Não tenho pretensões em me amarrar a quem quer que seja.
Mônica deu um passo para trás e saiu.
"Como pude ser tão tola?"
Indagada por si mesma,não chorou apenas tomou uma aspirina antes de se deitar.
Acordou de madrugada,com dores musculares,dor de cabeça e vômito.
Pensou em levantar da cama mas não conseguiu,vomitou ao lado da cama jogou um travesseiro em cima do líquido amarelo que saiu da sua boca,olhou pro teto e viu animais irreconheciveis mistura de hipopótamo com escorpião,elefantes com asas de morcego e tudo a girar.
Seu corpo ardia debaixo de edredons caros e sem niguém ao seu lado.
Telefone caiu ao chão e ela não conseguia alcança-lo.
Não dormiu,mal acordou,pela manhã agradeceu aos céus pela melhora.
Foi até o carro do vizinho que estava pronto pra sair e disse:Sofri por mim ao amar a ti mas hoje percebo que senão fosse a dor passada não seria capaz de te dizer adeus.As chaves estão aqui volto hoje pra BenCastle minha cidade Natal,procure-me quando tiver certo do que sentes primeiro por ti depois por mim.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Rosélia

Ela cantou alto naquela manhã.
Rosélia mulher séria com idade média,estatura média,religiosidade média,negra de tonalidade média,mezzo soprano.Vivia em seu apartamento com casal de papagaios inférteis,um cachorro vira lata bem próximo da beleza de um pequinês.
Assistia novela as 18:15 pontualmente as segundas feiras,trabalhava o resto da semana.
Atendente de caixa em um Hipermercado sentia-se como uma planta que estava a embelezar porém nem sempre era notada.Sorria,cumprimentava,voltava a sorrir e quase nenhum cliente dava-lhe atenção:"Nada pessoal,é apenas pressa" insistia em repetir.
Falta de educação era impensado.
Em uma terça feira de chuva recebeu um "muito obrigado" de um alto homem de tez negra e sorriso lindo e este foi o primeiro de muitos à cada vez que o via o coração disparava e a pergunta lhe vinha:"Será por mim que ele vem?Serei coroada com este príncipe?"
Em sua casa deitada sobre a cama fria teve a intuição de encontrá-lo no dia seguinte,levantou-se viu e reviu roupas escolheu a mais linda no dia seguinte iria sem uniforme.Inventaria uma história qualquer sobre uma festa inesperada na qual passou a noite toda e veio direto pro trabalho tendo tempo apenas de passar em casa e pegar o crachá.Foi a fármacia comprar tinta pros cabelos escolheu vermelho intenso,mais um óleo que dá brilho como se fosse um lustra móvel cosmético.Bateu na casa da vizinha à 00:20 emprestou maquiagem alheia e pediu dicas de tingimento de cabelo.Aprendeu fazer balaiagem caseira.
Enfim o dia chegado,uma negra-ruiva com vestido tomara que caia bege,em um scarpin preto e um par de brincos luxuosamente baratos e lindos,sentou em seu posto com um crachá discreto a lhe sorrir entre os seios médios deliciosos.
A história da festa colou.
A intuição não falhou,o belo negro alto de dentes brancos e afáveis chegou e estupefato apresentou a ela sua noiva Elis,loira alta de sotaque gaúcho.Rosélia levantou-se deixando as compras do jovem Robson(descobriu seu nome naquela noite)chamou um dos seguranças do Hipermercado um Marcos qualquer solteiro,másculo e nordestino e beijou-o,tirou o pau dele pra fora da calça e chupou-o ali,foi chupada ali,tendo por vouyer o supermercado todo e o mais importante Robson e sua gaúcha ao final do gozo disse:"Desculpe o caixa esta fechado"

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Rezas

O religioso chega de mansinho perto de mim.Pede que lhe diga o que sinto,o por que de tanta tristeza estampada em meu rosto mulato;saberia responder se não tivesse sido interrogado.
Com roupas,fragrância e sutileza de sacristão mandado as feras, veio o pobre protestante(de pobre não tinha nada)tirar o peso da minh'alma.Poderá ele?
-Quero sexo com você.Disse sorrindo pra ele.
-Minha crença não permite.Disse o sacristão protestante calmamente.
-Qual inquietação te perturba? Persuadiu o protestante.
-Teria tempo pra ouvir,ou desejo de ajudar?(mulato)
-És importante pra mim,como céu pro pássaro.(protestante)
-A rejeição me é por companheira.Desconheço aceitação prévia,sorriso afável ou palavras curtas como:Eu te amo!(mulato)
-Faria o que com tais palavras?(Protestante)
-Se viessem de ti?Beijaria-te!(mulato)
-És meu irmão.(protestante)
-Irmãos se beijam.(mulato)
-Te beijaria.(Protestante)
-Eu também.(mulato)
-Mas qual a certeza de que isso aliviria tua dor?(Protestante)
-Qual a incerteza?(mulato)
-Sou fascinado pelo outro lado.(mulato)
-Que lado?(Protestante)
-Onde há silêncio e escuridão.(mulato)
-A certeza da morte?(Protestante)
-Além da certeza,quero o abraço da morte,o beijo sincero desta companheira de todos.E quero neste momento.Tenho fascínio por este lado escuro e mordaz,há tantos que choram de medo por causa deste nada vigente.Pois eu aceito.Minha oração sincera.(mulato)
-Mas um dia ela chegará a todos.Incluso estas!9protestante)
-Talvez seja isso.Não admito a possibilidade dela chegar quando queira.(mulato)
-Controlador.(Protestante)
-Morra comigo,te peço.(mulato)
-Meu Deus prega a vida(protestante)
-Mais uma vez rejeitado,meu destino real.(mulato)
O sacristão protestante se afasta e caminha pra casa.O mulato sentado canta uma canção de ninar na espera do próximo clérigo.