sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Despedida

O frio lhe fazia bem.
Raul encontrou-se com seu amor na praça próximo de sua casa,infeliz por ser talvez o último dia em que passarão juntos.
Raul olhou de longe seu namorado 1,73 moreno cabelos escuros de sobrenome inglês com traços àrabes.
Chorou.
Moore voltaria pra cidade natal iniciaria o curso de Jornalismo em Porto Alegre e sabia que não seria mais o mesmo quando a distância desse seu parecer no relacionamento.
Frente a frente as lágrimas contínuas na face de ambos.
Triste fim?
Pensamento este rasgou o cérebro dos apaixonados rapazes.
Raul ali viveria na cidade onde nascera e aprendeu amar.Moore encontraria em breve um outro alguém.
Abraçaram-se e com voz baixa concordaram em ir pra um hotel barato.
Transaram loucamente.
Moore cruzou a porta e depois de 5 meses mandou um telegrama.
Havia iniciado um namoro com um professor casado.
Raul leu o telegrama sem saber o sentimento que se dera dentro de si.
Vestiu sua calça jeans preta,camiseta azul clara,tênis all star vermelho e saiu pra contar as folhas caídas no chão.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Rafael

Cansado de aguardar deixou as flores no banco traseiro do carro.
Dirigiu até a estrada velha que dava para rua Conselheiro Montemor estacionou e ficou a pensar.
Três horas se passaram enquanto o sol lá fora se despedia,ele absorto movia os dedos lentamente como um maestro russo ao executar Rachmaninoff.
Ao perceber que as horas avançavam deu marcha ré e parou novamente em frente a praça; linda praça com bonito nome de Ingrid Ishikawa,não sabia quem havia sido tal mulher mas de algum modo a achou digna de ser admirada.
Avistou de vestido azul claro Ana.
Saiu do carro e numa pressa assustadoramente fora de seus padrões perguntou onde havia Ana estado para que uma demora como aquela tivesse ocorrido.
Ana deu um beijo em seu rosto e subiu no ônibus que do outro lado da praça esperava passageiros.
Rafael não viu mais ninguém além dela subir ou assentar-se no 336 Bairro Belo Jardim apenas a moça loira de olhos azuis que lhe beijou a face e o presenteou com uma interrogação.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Clarice

Contou mais uma desilusão entre tantas no caminho.
Clarice.
Meiga moça ruiva a olhar pela janela num domingo de sol pós culto presbiteriano diurno.
Nunca havia sentido algo tão forte quanto o que sentiu pelo alto pastor luterano.
Clarice havia vivido seus desencontros amorosos juvenis,contava apenas com 20 anos quando foi surpreendida com a imagem de um alto homem branco,olhos verdes,voz firme,braços fortes sorriso de galã.Era o novo pastor da mais recente igreja luterana da cidade.
Em uma festa de boas vindas entre as igrejas históricas da cidade deu-se uma troca de olhares perceptível a todos porém eram jovens,não haveria mal algum mesmo este pastor sendo casado,"coisas da idade" disseram os pretensos protestantes.
Havia no olhar da esposa deste que denunciava uma certa complacência,não fazia o estilo de mulher ferida pela possível traição.
O segundo encontro em um supermercado ocorreu de forma natural e simples entre uma prateleira de azeitonas e outra de palmito.
"Não me satisfaz palmitos" disse o pastor.
"Depende da forma como se introduz ele pode ser bem saboreado"respondeu ela.
"Conheces de cozinha?"indagou ele
"Um pouco menos do que da vida"replicou a ruiva.
Com um sorriso bem pouco galante caminhou ele para o caixa.Dando ali um sorriso aberto e conquistador para a operadora.
Terceiro encontro foi na Igreja,Igreja Luterana da Salvação.
O pastor defendia a idéia de que a sociedade esta pronta para atacar aquilo que na verdade reconhece dentro de si ou entre quatro paredes o que é abominável ou frágil,nenhuma figura poderia melhor ser retratada nesta pregação do que Maria Madalena alvo da intempérie de um povo.
O olhar fulminante do pastor veio em sua direção quando disse do arrependimento de Maria Madalena que a certa altura do Evangelho chega a enxugar os pés de Jesus com os cabelos.
"Quereria ele dela algo comparável ao que a personagem bíblica?Devoção extremada?Silêncio ao invés de inteligência colocada em palavras?Seria um convite?" dúvidas apenas isto carregou do culto.
Ligou para o pastor na manhã de sábado e disse que iria a livraria e precisava de uma boa dica de livro,o pastor disse que precisava conhecer algumas livrarias da cidade e se propôs a ir com ela.
De bermuda jeans,pólo verde escuro,sandália de couro marrom o pastor parecia um turista canadense na pequena cidade de Guaratinguetá,com as bochechas vermelhas pelo sol que tomara reluziu ainda mais a beleza européia do jovem pastor sulista.
Procuraram pelos livros de Moacyr Scliar,Milton Hatoum,Lygia Bojunga acabaram ao mesmo tempo com olhos no livro de uma escritora recente por título Sexo entre Religosos e Afins,Laura Cardoso Ximenes psiquiatra judia que abordava a questão sexual dentro de várias religiões,os dois se aventuraram na compra.
No estacionamento da livraria trocaram emails.
Durante a noite conversaram longamente até que uma frase por fim deu o tom de toda uma conversa:"Preciso te ver amanhã".
Marcado o encontro na Biblioteca da Cidade,entre Machado de Assis e Lyia Fagundes Telles se deu o orgasmo menos literal já um dia descrito.O pastor colocou as mãos por baixo da minisaia levantou levemente sugou a pequena vagina com alguns fios ruivos enquanto a moça gemia de prazer com uma biografia de Carmem Miranda nas mãos.
Terminaram a bela tarde de sexo transando na secretaria da igreja.
Mal conseguia olhar para a esposa do pastor quando percebeu que seu pai,presbiteriano desde a infância tornou-se luterano convicto aos 54 anos e passou de um músico inveterado a leitor compulsivo com primaz constância as bibliotecas e livrarias da cidade,sempre acompanhado de Sylvia esposa do pastor e criadora do Ciclo de Leitura Luterano.
Continuou a apreciar os livros.

sábado, 7 de novembro de 2009

Diego

Eu não sei.
Repetiu tres vezes ao psiquiatra.
Calou-se em seguida.
Após ler Rimbaud,Ferreira Gullar e Sidney Shelton desceu a cozinha.Tateando pelas paredes sem os habituais óculos que dispensava dentro de casa chamou por Gabriela.
Silêncio por resposta.
Sem sinal de que alguém passara pela cozinha muito menos Gabriela que sempre deixava portas dos armários abertos e um cheiro de café estonteante por toda casa.Tudo estático portas fechadas,fogão irritantemente desligado.
Foi ao calendário consultou-o de cima para baixo não era aniversário dela,seu ou de alguém próximo.Qual seria a surpresa?
Lembrou-se...era aniversário da irmã dele,mas havia tres anos que ela vivia na Alemanha,qual cidade mesmo?
Duhrein.
Nunca entendeu por que alguém escolheria um país tão gelado para morar,pior que Alemanha só o Pólo Norte ele e Gabriela sempre amaram o sol,conheceram-se na praia.
Ubatuba.
Sua irmã teria vindo de tão longe enfim?
Duhrein.
Havia um e-mail há ser conferido,um e-mail já lido mas que por alguma razão precisava ser reconferido.
"Venho por meio deste consolidar minha tristeza por esta perda.Nunca imaginei em nossa família algo tão terrível!Meus pêsames.De sua irmã Antônia!"
Pêsames?
Mas...
Foi ao telefone e discou para a sogra,claro Gabriela devia ter tirado o sábado para ir na casa da mãe,viúva,protestante,sozinha como ele poderia ter cogitado num sábado de folga como aquele Gabriela não visitar a mãe-amiga de todos momentos."Homens" lembrou-se de como Gabriela sempre dizia quando ele esquecia coisas óbvias que uma mulher por momento algum deixaria escapar.
Discou o número.
O telefone tocou tres vezes a sogra atendeu ao ouvir a voz o genro chorou.
Diego desligou.
Foi até a escrivaninha,viu uma carta de Gabriela a grafia delicada:"Obrigada por proporcionar esta viagem sensacional,estou feliz por me encontrar com sua irmã em um país tão diferente de nós dois.Vou com a parte esquerda do meu coração no peito.A direita deixo contio e quero junta-las na minha volta.
*Não esqueça de ser gentil com Marilda nossa empregada,de dar água as plantas e ir a igreja aos domingos.
Te amo,Gabi"*
A imagem de um lindo corpo delineado de mulher negra 1,80 cabelos chanel pretos,placidamente maquiada,vestido preto estilo tomara que caia,capa cinza de pelos sintéticos,sapatos Gucci prateado.Sua Gabriela estirada ao chão,atropelada após sair de uma pequena capela luterana e neve ao lado contornando a cena funesta.
Diego olhou para o psiquiatra homem alto,loiro de rosto largo procurando decifrar as incertezas,diferenças e injustiças da vida.
Olhou para o alto e disse:
Eu não sei.

sábado, 17 de outubro de 2009

Bailarina

Reviveu ao ver o ballet russo apresentar-se pela terceira noite consecutiva no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.Mariana sorriu destemida ao ver uma jovem negra como ela dançando levemente no palco gigantesco.Respirava diferente dentro do teatro,como se os pulmões absorvessem a atmosfera de satisfação que ali reinante.
Aplaudiu de pé.
Se por ela fosse ali ficaria,veria horas a fio o espetáculo.
Na volta pra casa tomou seu habitual ônibus da zero hora;na cidade de Tres Corações- Minas Gerias onde cresceu ouvia dizer que meia noite era horário das almas penadas;vivendo no Rio de Janeiro há dez anos e oito meses esqueceu-se das almas penadas e prestava atenção nos passos que a acompanhavam dia e noite.
Cada um poderia ser a face viva do horror.Estampado em cada rosto a insegurança advinda da maldade profunda.
Viu em seu primeiro ano morando em cidade grande uma senhora sendo atropelada em plena Avenida Atlântica e apenas um murmurio de alguns que chamaram a ambulância e tudo o mais a correr normalmente.Apenas mais uma mulher,desta vez uma senhora de aproximademente 70 anos caida no chão atropelada por um motoboy que corria para entregar algo importante para alguém que poderia reclamar de seu serviço prestado com 5 minutos de atraso.
A velha no chão.
Ela continuou a andar também.
"Problemas arrancam a sensibilidade" pensou.
Enquanto folheava um exemplar mais recente do livro do pastor batista Ike Murdoch Phillips,pensou em como seria bailar ali em plena avenida carioca,ou pintar o Museu de Arte com cores vivas como as que viu em um livro sobre pinturas africanas,pensou em decorar postes com cetim e colocar ao lado de cada semáforo uma poesia de Wally Salomão.
Desceu no seu ponto rindo sozinha.
Ao chegar em casa deu leite ao gato,ração pros peixes,assou sua lasanha vegetariana e dançou ao som de Beethoven,ouviu aplausos ao deitar-se,após longa oração.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Silvana

Silvana desacreditou quando desembarcou em Paris.
Economia de dois anos pra conhecer a cidade tão bem cantada por Edith Piaf,Cidade Luz.
Foi sem um amor na bagagem.Na cidade mais romântica do mundo.Silvana tomou vinho sozinha,degustou azeites carissimos e tomou cuidado com crossaint's engordativos e deliciosos.
Não houve lágrima ou desespero.Soube ser companhia pra si.
Brasileira,amazonense,flamenguista e corretora de imóveis,alegrou-se ao tirar fotos de cada canto da cidade e postar em seu blog pessoal.
Comprou alguns "souvenier's" para seus 7 sobrinhos,2 amigas e para o ex namorado hoje casado com sua cabeleireira.
Silvana tinha marcas no coração que o tempo podia até fazer questão de não apagar,mas na lembrança guardava apenas o fogo ardente de ser feliz independente da variedade de atuações de vários amores deixados a beira da estrada.
Uma semana restava para voltar ao Brasil,foi em um antiquário na tarde bela e fria de uma Paris atual observando os quadros abstratos a frente reconheceu os fios longos e loiros de uma antiga amiga.
Denise.
Haviam estudado o colegial juntas e nunca mais se viram;Denise apresentou o marido e logo foram jantar a três em um pequeno restaurante calmo,regado a vinho e boa conversa.
Relembraram.
Antoine um típico francês alto e magro ouvia a conversa calado e atento ao português que vinha aprendendo desde que conheceu Denise na Embaixada Brasileira onde ela trabalhava como secretária a exatamente 3 anos naquela noite.Tímido propôs que a brasileira fosse a casa deles no dia seguinte marcaram o horário e antes mesmo que Silvana pudesse se dar conta um táxi a esperava na porta do hotel para levá-la a casa dos amigos.
Ao chegar,Denise esperava sorridente na porta cheia de flores em um belo endereço da cidade,no olhar de ambos algo diferente,certa sensualidade pairava no ar.Frisson.
Conversaram amenidades.
Entre um copo de vinho e outro,Denise a beijou.
Elas se beijaram.
Antoine olhou tímido.Tirou a roupa,tímido.
E na bela cidade levemente fria um casal mostrou a beleza da cidade.
A beleza dos corpos entrelaçados.
Silvana esqueceu de postar por um dia algumas fotos.

Fernando

Ardendo em febre Fernando foi a farmácia munido com sua receita médica.
Mau saudou o balconista e logo apresentou seu passaporte pra felicidade seja lá o que iria tomar pois não decora nada muito menos nomes de remédio desejava o retorno do paraíso que nada mais é aquele desejo sóbrio de não sentir dor.
Saído de lá com vários comprimidos coloridos tropeçou na calçada vazia talvez houvesse chutado os próprios pés na pressa de retornar a casa,apenas sua casa;noite chuvosa em São Paulo,um resfriado por presente do tempo,uma farmácia à três esquinas de casa,maus motoristas,cliclistas,motoqueiros e transeuntes dentre todos,ele.
Não sabia se o seu mau humor teria nascido do resfriado-gripe ou do abandono que sentia toda vez que chovia principalmente a noite.
Era feliz ao seu modo.
Felicidade grifada ou pontuada poderia ser infelicidade explicada.
Deixou analista,igreja ou crença que fosse.Conversava com o D'us.Deus que ele passou a crer de forma como os hebreus.Talvez a solidão reinante em cada judeu espahado pelo mundo por não terem um lugar seu e o pseudo lugar nunca ter paz foi o que o fez identificar com essa fé.
Todo judeu é sozinho.
Todo judeu sofre calado.
Tudo sou eu no silêncio da noite.
As vezes,talvez,quase sempre...palavras de seu vocabulário constantemente revisitadas;certeza lhe faltava a dúvida permanente batia em sua porta todas as manhãs.E se não fosse a música...
Ah se não fosse a Arte!
Apenas com ela ele podia ficar mais próximo do Eterno.
Valia a pena continuar em dúvidas diárias?
A consciência o questionava enquanto preparava Leite com aveia e mel.
Confusão seria resposta para os que procuram o caminho alternativo?
Engoliu a castanha olhando pro quadro de Nina Ali Faour;um homem diante de uma cruz cravejada de diamante e sangue, no chão pétalas brancas e romãs.
Pensou em não pensar.
Era sábado,deitou-se.
Ateou fogo no corpo,chorou baixo para não incomodar os vizinhos.